50227 Em Lugar De Cinzas, Restos De Madeira Viram Móveis E Objetos De Arte Para ExportaçãoPor Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos

Nas bordas da Amazônia, 3 milhões de metros cúbicos de restos de floresta e sobras de madeira, provenientes muitas vezes de desmatamento ilegal, são queimados anualmente para produzir carvão – a alternativa mais barata para cozinhar alimento nas comunidades carentes e nas favelas.

Com o programa Floresta Móbile, esses restos têm um destino mais nobre do que acabar em cinzas. Eles são transformados em móveis, objetos de arte e de decoração e exportados para a Itália. O objetivo do programa é fortalecer a cultura e o conhecimento locais, gerar emprego e renda, recuperar o meio ambiente degradado e plantar árvores para usá-las de forma sustentável.

“É um modelo para a sustentabilidade e crescimento de regiões com baixo desenvolvimento e muita mão-de-obra disponível”, explica o cientista social e fotógrafo Robson Oliveira, idealizador do programa e coordenador do Conselho Euro-Brasileiro de Desenvolvimento Sustentado (Eubra). “Trabalhamos com conceitos de globalidade e não de globalização, com uso intensivo de mão-de-obra e baixo índice de tecnologia, e também com a conexão direta do produto com o homem e a natureza.”

A fabricação dos móveis e objetos de decoração a partir de restos de madeira poderá movimentar cerca de 1 bilhão de euros anualmente, triplicando a renda per capita das comunidades vizinhas à Amazônia nos Estados do Ceará, Maranhão e Piauí. “É o novo design do século XXI, substituindo o plástico poluente da era industrial e utilizando a madeira da fase pós-industrial para a fabricação de objetos”, conta Oliveira. “Estamos transformando esses resíduos em objetos de valor agregado, como móveis, luminárias e esculturas, para que os grupos envolvidos possam pagar o gás de cozinha e não ter que produzir ou queimar carvão. E, principalmente, para dar um exemplo e criar um modelo de sustentabilidade local.”

O programa Floresta Móbile surgiu da parceria entre várias entidades e empresas: Eubra; Senai Açailândia (do Maranhão); pequenas empresas do micro-pólo moveleiro de Açailândia e Buriticupu; comunidade do Pirambu, em Fortaleza; comunidade Galiléia, de Açailândia; Projeto Floresta Criativa, de São Luiz do Maranhão; São Luiz Convention Bureau; Air Italy; IBAMA; Escola Italiana de Design; e Agência Italiana para Desenvolvimento do Nordeste Brasileiro (Itane). As duas últimas são as responsáveis por agregar a experiência italiana na distribuição de móveis e objetos de decoração.

“Desde 2003, um grupo de designers e arquitetos dos EUA, Europa e Brasil tentavam criar um novo conceito e modelo de design planetário. Há um ano e meio, esse movimento está criando força e encontramos no Brasil um substituto para o design pós-industrial italiano, nascido na década de 60, sendo que a poltrona Kyoto é o símbolo deste novo modelo viável e forte para o design contemporâneo”, explica Robson Oliveira. Com sua estrutura construída a partir das sobras de madeira, a poltrona Kyoto é fabricada em uma pequena marcenaria em Açailândia, no sul do Maranhão. O estofamento, em fibras naturais, é feito pelas artesãs da favela do Pirambu, em Fortaleza. Em abril, a poltrona Kioto representou o conceito de eco-design na mostra “Brasil – Design do Século 21″, que aconteceu paralelamente ao 47º Salão do Móvel de Milão.

A venda das peças já está sendo iniciada, com parcerias junto a representantes internacionais para vendas e contatos na Europa, divulgação e apoios de revendedores com lojas nas cidades de Roma, Varese e Milão, que funcionarão como showrooms e espaço de promoção e de comercialização. Além de viabilizar a exportação dos objetos produzidos para a Itália, o programa pretende integrar e capacitar produtores artesanais do campo e da cidade em torno de um projeto comercial cooperativo, atuando na formação de técnicos, arquitetos, designers e multiplicadores. Está previsto, também, o investimento de 3% do total obtido com as vendas dos produtos na produção de mudas de reflorestamento nativo.

Os coordenadores do Floresta Móbile propõem disponibilizar a tecnologia do projeto a outros grupos, para que ele possa ser replicado a outras regiões e países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, que tenham problemas semelhantes às regiões carentes do Brasil. “O Floresta Móbile não inventa nada de novo, apenas mostra o caminho existente para que outros copiem o modelo e continuem o trabalho”, afirma Robson Oliveira.

(Envolverde/Instituto Ethos)

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